segunda-feira, 13 de maio de 2013

"ARREMEDOS" in - Sombras



ARREMEDOS

Já fui jovem, tive meus sonhos,
minhas manias (no muito inofensivas)
que voaram nas asas da realidade.

Tive meus castelos, meus reinos,
minhas riquezas (ouro, púrpura, diamantes)
e as desfiz num jogo de cotidiano áspero.

Tive eternas férias, livros raros,
mestres lúcidos, sábios amigos e leais
que a boca da distância engoliu.

Criei meus amores, minhas rusgas,
minha ideologias, meus mitos íntimos
que se perderam na roda da sorte bêbada.

Que riso é este?
Eu digo: é o meu corpo jogado
neste desespero de vida
que mais parece
arremedo e arreganho.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

"FRONTEIRA DO IRREAL" -In “Antologia dos Esquecidos 1” – Marcelo Cavalcante


FRONTEIRA DO IRREAL



O descortinar do dia é neblinoso por sobre os contornos acidentados da Zona da Mata mineira, como a reafirmar a perene gravidez da natureza por toda a região.
Obediente ao ritmo progressista de muito trabalhar, aliado ao capricho metódico dos donos, a fazenda Miraflores é de uma limpeza e organização exemplares, em todos os seus desdobramentos e minúcias. O lugar expõe uma aura de mansa tranquilidade apesar da intensa e profícua faina.
Ex-funcionário de banco, Augusto Matos, ao ver a fortuna lhe sorrir em forma de sorte grande em loteria governamental, aproveitou a oportunidade do falecimento do velho Elias Alves, e adquiriu vantajosamente a fazenda aos herdeiros, todos moradores em metrópoles.
Deu-se aí, a grande transformação de Miraflores que, no transcurso de quatro anos, reformou-se completamente, ganhando ares modernos e tornando-se atividade rendosa.
Homem prático, com instintos de quase usurário, portanto isento de dúvidas ou crises existenciais, Augusto Matos não poderia nem pretendia justificar ao seu íntimo, aquela reviravolta que o andava a influenciar, ligando-o a histórias do tempo do ronca. De positivismo crônico, adquirido em cepa camponesa e solidificado nas lutas pela subsistência, era o produto acabado do que os sociólogos e intelectuais convencionaram chamar de pragmatismo.
Sete anos de casado com Débora dos Anjos e amealhara conquistas e sucessos merecidos além, é claro, do casal de filhos ambos saudáveis e irrequietos.
De forma desusada, macambúzio, Augusto Matos percorre a manhã, a cumprir funções cotidianas. Irrequieto, pensativo e cismarento, tenta decifrar o enigma que o molesta. Afogado em dúvidas tenta um jogo lógico, na esperança de separar o sonho da realidade.
A noite anterior, em seu desenrolar de reinações, sufoca-o em imprecisa angústia.
A coriza não justifica o resfriado nem o abatimento que lhe invade a alma. Inquieto, atenta aos contornos das sombras nunca antes observados.
Com não menor ansiedade, observa a casa típica de fazenda, espaçosa e confortável, apesar do estilo rústico duvidoso, como a esquadrinhar o montante de dúvidas e inseguranças.
De forma atípico, fica a remoer e bem comprovar a insensatez de suas resoluções.
Toda a estranheza tivera início na noite anterior. Noite clara. A lua buchuda o encontrou na sala a coordenar idéias de prosperidade e melhorias a empreender nos pastos mais distanciados. Num tempo impreciso, escutou (ou julgou escutar) nitidamente uma voz no quarto das crianças. Voz estranha, rascante, de homem, com acentuado tom gutural. Tenso, dirigiu-se ao quarto dos filhos e os foi encontrar brincando normalmente.
Cismado, retornou à sala.
Entre comentários sobre mesquinharias do cotidiano, recusou o café oferecido pela esposa e recurvou-se sobre papéis abarrotados de planos.
No ventre da noite impúbere, Augusto serpenteou por sono agitado. Uma espécie de pesadelo em que tentou desesperada e inutilmente despertar. Renhir de vontades e o despertar brusco, estonteante.
Observou o quarto em derredor e inquiriu vibrações febris e ouviu vozes indefinidas, inidentificáveis, que não adivinhou a procedência.
Controlando-se, rebuscou forças e coragem para levantar-se. Silencioso e tenso inspecionou a casa. No quarto dos filhos, totalmente às escuras, distinguiu um rebrilhar avermelhado e inconsistente.
Novo barulho o levou a desviar a atenção e o fez retornar ao próprio quarto e foi com desafogo que encontrou Débora, sentada na cama, cabisbaixa, o quarto inundado de luz.
Comentou sobre a estranheza dos acontecimentos até que viu, incrédulo, a esposa elevar o rosto congestionado e lentamente, como mastigando as palavras, falar aquela voz estranha, grossa e gutural.
Desmaiou.

*      *      *      *      *

Dos insólitos e inexplicáveis acontecimentos daquela noite medonha, Augusto Matos adquiriu uma desusada nervosia de modos, tão flagrante que aconteceu despertar olhares interrogativos até das crianças.
Passa o dia cismarento e, o que mais o inquieta é a absoluta tranquilidade da esposa no seu proceder cotidiano.
Assaltam-no dúvidas as mais diversas, desencontradas e descabidas.
Com extrema facilidade reconstitui todos os acontecimentos esdrúxulos e profanos. Hipoteticamente, chega a admitir que tudo não passara de um pesadelo anormal, inextrincável.
Com a aproximação da noite, acentua-se a angústia ante uma não definida expectativa. Ronda, inquieto por toda a casa, metediço e inquiridor.
É neste estado aniquilador de tensão que decide manter vigilância, enfurnado na madrugada.
Com o revólver sob o travesseiro, fumando descontrolado, espreita sons e espera o imponderável. O arrastar da noite é lento e desigual em sua faina metódica.
De chofre os sons espocam nítidos e inconfundíveis, no quarto das crianças.
Armando-se com ânimo forçado e empunhando o revólver, tateia o corredor penumbroso. Ao transpor a porta, no quarto dos filhos, prende-se imerso numa fumaça extremamente densa, impregnada de um cheiro adocicado e enjoativo. Observa atentamente na direção das camas e fica a mirar umas luzes extremamente vermelhas. Tomado de intenso impulso, recua apavorado e acende as luzes. Apoplético e eriçado de horror, comprova o intuído: as luzes são os olhos dos seus filhos, agora fachos apavorantes.
Foge enlouquecido, retornando ao próprio quarto onde encontra a esposa sentada naquela imobilidade patibular. Descontrolado grita, tentando desvencilhar-se do sonho ou reaver a neutralidade do real. Desesperado, tenta escapar às teias insidiosas do pesadelo.
Os gestos pausados de Débora contrastam com o seu riso maligno e a voz estranhamente grossa e antinatural.
Ensandecido, Augusto Matos, dispara a arma à queima-roupa, às cegas. Assiste ao lento esmorecer da esposa e observa o sangue escorrer e formar a mancha enorme no lençol.
Quando se vira, está sob a observação dos olhos inumanos, dos próprios filhos. Ante aqueles olhos de fogo, preme o gatilho até descarregar a arma.
Em total desarranjo, sai da casa aos gritos e, às cegas, instintivamente abandona a casa.
Ganha o rumo da cidade.

"BRONCOS"-In “Antologia dos Esquecidos 1” – Marcelo Cavalcante

BRONCOS

In “Antologia dos Esquecidos 1” – Marcelo Cavalcante


São eles, os broncos.
Homens de raça difusa, almas simplórias, crenças rudimentares, religião sincrética, e que têm a padronizá-los o descarnado forte advindo do comum labor ríspido do machado, do azafamar ininterrupto e sufocante do traçador manual, sob um sol de trópico, untuoso de maleitas.
Cabras desabridos de gestos e falares intermitentes, escudados na braveza vera e prática, amostrada e provada dia pós dia, tormento pós-tormento, afora a inocência violenta a requerer superação.
São os filhos bastardos de uma nação madrasta. São os pais extremosos na rispidez dos gestos – que passam pela sincera singeleza da ternura – e são, ainda, os desbravadores dos trieiros suados, ensanguentados e povoados de serpentes e mal assombrados.

– Menino, a-hum! Dizque cascavel, num erra bote. É bicho de pulo seguro e certeiro. Tem ‘té quem bote fé e afirme, que se uma errar o bote, é bem carecido dela morrer de raiva!

Brabos e broncos, os únicos, os escolhidos pelo destino desatinado, apartados pela sagacidade dos capatazes e efetivados pelo eito desumano, destorroador de peles crestadas e mutilador de mãos, transformadas em feixes de calos, transformadas em torqueses de cartilagens.
São eles que, aos bandos – arrebanhados nos lares erráticos –, irmanam-se na companhia momentânea, equilibrando-se em carrocerias de caminhões “toreiros” e desandam um destino igual e nunca monótono. Do país, são os filhos intimoratos tão agigantados quanto frágeis. Não temem os perigos reais, que são enfrentados diuturnamente com desabrida valentia, mas se apavoram com o surreal de estórias do outro mundo. Guardam nas suas almas simples a dicotomia de adultos e meninos. Fortes e ingênuos, mas para sempre destemidos. Firmam seus credos em crendices e respeitam o preceito de não usar camisa pelo avesso e de não ferir árvore onde está pousada a acauã.
Consomem crenças infantis e mitos robustos, à falta de esperanças ou gestos.
Brutos e ingênuos, ferozes e ternos, insensíveis e extremosos, eles são os tenazes e temerários madeireiros do sertão goiano.
Percorrem grunas e cafundós, terras e infernos, desde que a madeira seja farta e o contratante decida.
Defendem subsistência, algo de sustança nos buchos protuberantes dos filhos e são moucos – ou não entendem – para as potocadas sobre defesa ecológica. Acreditam – pela vastidão e abundância – que as matas goianas serão eternas, feito o Pai Eterno.

– É mato, menino, pra machado nenhum dá no fim. Ora, se!

São eles que tomam achego, desincomodados e afeitos aos azaranzados do destino. Armam redes, erigem taperas provisórias, constroem jiraus e desafiam o mato com desassombro desbravatoso.

– S’incomode, não. ‘Manhã de manhãzinha nóis vê isso. Uma noite só, enfadado como nóis tá, dá pra drumi inté dependurado pelos ovos... Des’ que tenha adonde punhá as mão...

A dieta uniforme recomenda arroz / feijão / toucinho / farinha, como básica, complementada com o que do mato bravo possa ser arrebatado: jerimum, melão, pimenta, palmito e mais a caça e a pesca conseguidas nos domingos extraviados por meu Deus.
Os farnéis são individuais e cada qual prepara e consome apartado dos demais. Fazem ritualmente quatro refeições diárias, pois que o estatuto do lanche inexiste.
Brincam bruto, que não tiveram tempo de sofisticar os escassos brinquedos da infância. São desabridos e diretos, já que não conheceram meios que refinam e amansam a malícia. Rígidos, não dissimulam ou admitem dissimulações. Não encontraram o seixo ideal para afiar o gume e a ponta da faca da maledicência. Não dissimulam e não maldizem a sorte.
Brincam – quando brincam – inteiros, que pagode não é carecedor de mascaramentos ou intenções estreitas ou estrangeiras.
Careta e careteio.
Brincam de brincar saudades, tristezas, sorrisos e gestos.
Não raro, à noite (e a noite é sempre precoce pelas bandas de Guapó, Troca-Tapa, Ourominas, Paranã, Chapada dos Veadeiros, Araguaína – tudo mundão besta, oco de mundo), ante o fogo de lenha chorona e sob estrelas – subversivas de tão brilhantes – a prosa se espicha, os causos se sucedem e a melancolia invade e abarca insidiosa os corações.
Impensável e inadmissível o choro, proibida a confissão de fraqueza.

– Da goela, num passa... Esse fi duma égua!

Não há lamento ou soluço – acessórios supérfluos – mas apenas uma tristeza sólida, palpável que o sol seguinte, indiferente e burocrata se encarrega de tanger e expatriar.
Hora de trabalhar, de suar eitos desconformes, de bater ferro e não se incomodar com as treitas inesperadas ou as armadilhas do destino.
A fatalidade do peão madeireiro é a sua patente que, de comparsaria com a sua macheza temerária, requer espaço para existir livre, mas não um existir de bicho.

SOL RENTE - In “Sol Rente” – Marcelo Cavalcante



SOL RENTE



A noitinha atura a monotonia e o sem-sabor igaratuenses. Meninos ensaiam brinquedos e, domingueiros, os rapazes espiam as moças à saída da igreja.
Na praça, Martinho da Hora sustém entre as suas, as mãos de Doralice, entre nervoso e embevecido.
– Faz, isso, não, Martinho. Se pai fica sabendo...
– Tem perigo, não. Essa hora, ele não sai de casa nem a poder de muita promessa.
– Mas o povo fala. Esse povo é enxerido e acaba fazendo enredo...
– Tem perigo, não. Vem cá, vamos sentar ali no banco...
De inesperado, no improviso do momento, a aparição do Coronel Valdetário. Ereto, empertigado e sisudo, no tope dos seus setenta e tantos anos de muito rigor e imposições.
Entredentes, o rancor sai contido.
Inquestionado.

– Doralice, já pra casa! Ligeiro!

Mirar atento, sobre Martinho, de despeito e desaprovação. Por sob o silêncio, no íntimo, a decisão desarrazoada, retemperada e final.

Hum! De’stá, bichim, que ‘cê me paga!

No céu, estrelas e melancolia.


*      *      *      *      *


Forjado e empenhado na violência, fruto da brutalidade já no nascedouro, Valdão – José Alisvaldo do Nascimento – fez,  assumiu e recriou uma história ímpar de crimes e desmandos.
Com o pai tropeiro, foi criado desde a mais esmirrada infância, em lombos de jumentos, percorrendo os caminhos duros do sertão.
Da mãe, não se apercebeu que dote lhe ficou, pois que veio a falecer em serviços – arrochamentos e gemidos – de parto dificultoso.
Do pai herdou a frieza e a insensibilidade humanas.
Do meio inóspito aprendeu as lições de dureza que se desdobraram numa força física que não do pai, que era tico de franzinice.
Talvez, deste somatório desabrochou na vida com um caráter em que a fúria por sangue era preponderante e requisitada.
A sua novena de violências, debutou solene e cava em Crateús quando, a meio uma quaresma amena, arrombou as costas do pai com dois tiros de mosquetão, após carão de pequena monta.
Puxou cadeia de ano e meio, mas conseguiu festejar a protuberância dos dezoito aniversários em liberdade, a poder de fuga espetaculosa que deixou rastro de soldados feridos e um comerciante morto-estatelado, com enterro concorrido em campo santo.
A vida espichou-se no espichado dos acontecimentos e Alisvaldo, já e sempre Valdão, feito magarefe em ofício farto, encompridou mais e mais um emaranhado de mortes.
Tomou gosto e daí, sempre com o tino e a ligeireza afiadas para o manuseio das armas, escalou fama de nomeada que o tocaiou com a contingência de alugar o seu ofício a quem não regateasse preço ou opusesse sermões de consciência.
Indiferente aos dramas humanos, Alisvaldo cumpre suas empreitadas com a justeza de todos os erres, vírgulas e sotaques de seus contratos, ordinariamente verbais.
Apalavrado, coisa contada como se consumada na antecipação da confiança.
Bicho arisco, enviesado dos bofes.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

IX - PIRGENTINO de Almeida RUAS (1951 )- In Antologia dos esquecidos 2



IX - PIRGENTINO de Almeida RUAS (1951 )

           Filho de Adeveraldo Cunha Ruas que foi, como sabemos, um dos mais destacados sociólogos de sua geração, tendo, inclusive, participado do grupo pioneiro da Universidade de São Paulo.
           Igaratuense dos colhões roxos, Pirgentino Ruas, desde a mais tenra idade viu-se na circunstância de conviver com livros o que o transformou num empedernido e compulsivo estudioso. Rato de biblioteca.
           Em precocidade estrambótica, enquanto cursava o primário no grupo escolar, foi aluno dileto de padre Eustáquio, com quem aprendeu, com espantosa facilidade, o latim e o grego. Fala fluentemente quatro idiomas, o que não constituiria assombro não fossem estas línguas mortas: latim, grego, etrusco e javanês. Dos tais idiomas vulgares, além do nordestês, domina com elegância e desenvoltura nove falares modernos.
           Graduado em filosofia, sociologia, física, economia e engenharia no Brasil, excursionou pela Europa (França, Inglaterra, Alemanha e Portugal) onde concluiu os mais diversos e díspares cursos de pós-graduação, todos com excelência acadêmica e com direito a ser condecorado pela rainha da Inglaterra e pelo papa do Vaticano.
           Retornando ao Brasil, estabeleceu-se em Igaratu de onde, até a presente data, não arredou pé. No solar da família desenvolve suas pesquisas e estudos que, de tempos em tempos, publica em revistas acadêmicas internacionais e no O Corneta. É correspondente dos mais importantes centros acadêmicos do mundo, com os quais mentem continuada e profícua correspondência.
           É membro da Academia Brasileira de Ciência, mas a sua maior frustração é não conseguir pertencer à Academia Igaratuense de Letras que, apesar de reconhecer os seus méritos, não o considera um escritor.
           Para a presente antologia escolhemos alguns textos curtos, do tempo em que era aluno de sociologia, menino ainda e cheio de bobices no quengo.

"IGARATU" - in. Antologia dos esquecidos 2


Igaratu é o imaginário, é o sonho torto que se contrapõe a esta realidade desfigurada e a este tempo de chumbo.