sexta-feira, 1 de abril de 2016

Além do razoável

Vivemos tempos ensandecidos, onde pululam pensamentos e discursos nada razoáveis. Convencer uma população bestializada, analfabeta e sem cidadania de que algumas mentiras representam a verdade verdadeira é tarefa de fácil elaboração e execução, principalmente quando se tem à disposição poderes e verbas quase que inesgotáveis. Convencer a maioria do povo de que Lula é um cidadão de vida despojada, um brasileiro comum ou que os governos do PT priorizaram os mais pobres não requer maiores malabarismos de criatividade mesmo para marqueteiros medíocres e de pouco talento estético-cultural. Mesmo porque o marketing, grosso modo, é a antítese da arte, a negação da criatividade verdadeiramente libertadora, pois que tem por finalidade o engodo que objetiva o aprisionar as suas vítimas.
Sinceramente eu entendo as ações (mesmo as injustificadas moralmente) dos chamados mortadelas, um bando de manipulados através de cargos no governo ou simplesmente das migalhas distribuídas nas manifestações públicas, tipo um desarrazoado e patético “não vai ter golpe”. Pelo avesso, também com sinceridade, não consigo entender (muito menos justificar) a postura de pessoas que têm discernimento de sobra para olhar a realidade e ver que está exercitando o cinismo cívico ao fingirem enxergar uma realidade que não existe, que nem dúbia é.
Pego como exemplo, não por acaso, mas pelo grau de exposição nessa lide tragicômica, a figura de Chico Buarque, dentre tantos outros que podem se assemelhar, para tecer algumas considerações de cunho analítico-prospectivo. A verdade é que o Chico é o maior compositor popular nascido neste país. Apesar de ter criado canções extremamente elaboradas e abordado temas de difícil curso, conseguiu seduzir o seu povo, com formação deficiente, de uma forma avassaladora e merecida. Talento, sensibilidade e bagagem cultural. Não há marketing que consiga transformar em sucesso uma letra que ousa usar a palavra escafandrista!
Acusações maldosas, resultantes de compreensível indignação, especulam que a sua solidariedade ao PT e ao Lula, existe em função de vantagens auferidas junto aos governos petistas. Filho de classe média alta ganhou dinheiro suficiente para levar uma velhice confortável e ainda goza de prestígio que lhe possibilita ganhar outro tanto. Heloísa tem todos os méritos para ser Ministra da Cultura no Brasil ou na França e se aqui o foi, são circunstâncias que desconheço e não tenho porque colocar em dúvida o processo que a conduziu a tal cargo. A Lei Rouanet é um balcão de atendimento caótico, no qual, como tudo no país, sempre tende a resolver as opções pelo lado mais fácil e óbvio: prioridade aos mais famosos, mesmo não necessitados.
Chico, por toda a sua vida adulta esteve exposto ao público e, apesar de manter discreta privacidade, foi alvo preferencial da mídia. Por todo este tempo nunca demonstrou nenhum desvio de caráter e sempre manteve uma postura sincera, mesmo descontentando alguns. Nunca se mostrou gratuito.
Diante do acima analisado, por razoável, não há como enquadrar Chico Buarque como um lobotizado mortadela ou um reles aproveitador das tetas de governo ou, ainda, um porralouca ideológico. Não faria sentido, já que estamos observando a realidade o mais aproximado do que ela é. Há que se observar e reconhecer que, ao longo da vida, ele foi, por várias vezes, tentado a aderir (existem formas discretas), em troca de enormes facilidades e não o fez.
Então, qual mistério, qual razão para nos depararmos com este artista singular defendendo publicamente um governo sabidamente corrupto e um líder a meio caminho da prisão por crimes de variados calibres? Os méritos pessoais do Chico são muitos, sempre foi exigente com suas obras, coerente com suas ideias e meticuloso no detectar e expor os maiores e menores erros de um regime antidemocrático por definição e autoritário por natureza. É neste ponto que a minha perplexidade se agudiza. Como este exímio especialista não farejaria a negociata rasteira, a esperteza covarde e a flagrante traição ideológica levada a cabo pelo Partido dos Trabalhadores? O que o leva a acreditar num golpe da direita contra um partido de esquerda no poder? Me estarrece acreditar que Chico Buarque crê (e acredito que assim o é) que o PT é um partido de esquerda realmente, nas suas práticas de governo. O PT ensaiou tais aleivosias antes de assumir o poder e logo em seguida mergulhou na amorfia partidária reinante, de direita, corrupta e insensível. Os fatos demonstram que em treze anos de exercício do poder, o PT nada mais fez do que dar continuidade à política neoliberal, acrescentando apenas um ostensivo aparelhamento do Estado. Em treze anos de poder jamais apresentou um projeto (nem de esquerda ou reformista que fosse) próprio para o país e viveu de ensaios erráticos e de improvisações nas quais predominavam objetivos eleitoreiros. Como agravante, aprofundou e sistematizou a corrupção institucionalizando o crime enquanto política de Estado.
Sabemos que a nossa elite não enxerga o povo do país senão enquanto massa de manobra, bois a caminho do matadouro. Assim continuou nos governos do PT e as ações sociais não mantinham preocupações socais, mas sim com o aumento do cacife eleitoral traduzido em votos. As verbas usadas nestes programas sempre foram imensamente inferiores às destinadas aos banqueiros e aos “empreendedores” ricos e amigos.
Conheci muitos artistas e pretensos artistas que nada mais aspiravam da vida além de uma carreira de sucessos, o que implicava em muito dinheiro e vida mansa. Nunca foi o caso do Chico, que sempre demonstrou sincera preocupação com os rumos deste país e os que duvidam atentem para o fato de que a sua obra é um eterno e obsessivo recontar da vida do povo. Ele emprestou a sua fala aos silenciados (não só aos exilados políticos), aos excluídos e aos simples de coração.
Prefiro acreditar, com alguma razoabilidade, que ele foi tragado pelos seus desejos e estes lhe suplantaram a racionalidade. Creio que ele observa o PT ainda como aquele partido combativo, heroico, intransigente em eterna pugna por justiça social. Nega-se a acreditar que a última oportunidade estiolou-se diante das opções burguesas de líderes que prezavam mais o consumo conspícuo do que o cheiro do povo, que sempre exala suor e sangue, êxtase e agonia.

O horror maior pode estar por vir em breve, e os seus desejos frustrados se transformem em pesadelo, caso sejam comprovados os crimes hoje investigados. O nefando bafo da perversão de se saber instrumento que forneceu sobrevida a estas lideranças que a aproveitaram para obstar ou inibir a descoberta de crimes perpetrados contra o povo, usando exatamente a força que a cidadania confere aos seus mandatários. Para alguém honesto, não concebo panorama pior.

sábado, 26 de março de 2016

A corrupção exacerbada

Lembro do FHC: “esqueçam o que escrevi”. Acho que ele sacou que sem compor com a corrupção não governava. Muito esperto fez um governo neoliberal, discreto ideologicamente (não saiu propagando o que não era, não disse que era um governo de esquerda, como o PT fez, sem ser). A contribuição do FHC foi combater a inflação (coisa que até me surpreendeu, após tantos planos fracassados) e atrelar os gastos públicos à Lei de Responsabilidade Fiscal. No mais a corrupção permaneceu intocável, num nível “tolerável”.
O Lula e o PT passaram anos demonstrando ser um partido diferente, que tinha uma militância generosa, pois que ideológica e cujo maior trunfo era o discurso de combate à corrupção. Martelaram esse mantra por anos a fio. Chegando ao poder o Lula tinha cacife para avançar nos controles sobre a corrupção, mas o que ele desejava era participar do jogo burguês (tinha aspirações de consumo burguês), demonstrar que era esperto (e é). Com a experiência sindical, descortinou os caminhos da grana pública e foi implantando um plano de aparelhar o Estado.
Lembro que logo após o Lula assumir houve o racha com os esquerdistas sinceros (Heloísa, Genro, Babá, e alguns intelectuais) porque ficou claro que não existia mais compromisso com as causas populares. Se estes sacaram a tramoia, muitos outros também, só que permaneceram no PT, pois as possibilidades de fruir dinheiro e poder se descortinavam ilimitadas. A oposição não percebeu isso? São idiotas? Só um grupinho de iluminados percebeu? Ocorre que para os caciques políticos, ser governo ou oposição (sob o aspecto da corrupção) não faz muita diferença, desde que algumas regras sejam obedecidas (rouba, mas deixa roubar é a regra de ouro). Lembro perfeitamente (ainda no primeiro governo Lula) das reclamações de que os petistas eram gulosos e estavam inflacionando a tabela da propina...
E tudo seguiu na santa paz até que... Uma certeza alarmante tomou conta da oposição e dos aliados do governo (não petistas, principalmente o PMDB): estes malucos vieram construindo uma estrutura para a captura do Estado com tal precisão que até o final do governo Dilma (com a possibilidade real de mais governo Lula), eles não mais necessitam de aliados ou da oposição. Serão autossuficientes em corrupção.
Lula e o PT aprofundaram a corrupção a níveis exacerbados (e aí está o calcanhar de Aquiles, o Moro, e o STF, mesmo comprado), com a ousadia só encontrada nos irresponsáveis, nos ensandecidos. Não pode! Ou nos locupletamos todos ou restaure-se a moralidade (Sérgio Porto). E aí surge Pasadena. Estava muito escancarado! Mas a "certeza" da impunidade era tão evidente que fizeram daquela forma desastrada e esqueceram que existia MUITO dinheiro privado na Petrobras. De rico não se rouba impunemente (rouba dinheiro da merenda, da saúde, da educação... dinheiro de ninguém). Como é que um paiseco de merda vai roubar milhões de fundos de pensão dos EUA, vai roubar países como Noruega e Suécia? Roubar da Bolsa internacional? Endoidou? Isso atrapalha o desenvolvimento do capital internacional e ele, nesse mundo dominado, pode tudo e é muito cioso de suas regras pétreas, sendo a principal a expansão do sistema.
Então, até aí, o PT (já uma quadrilha organizada dentro do Estado e bem estruturada) tinha a desconfiança da oposição e estava na mira do capital internacional. Eis que surge um juiz de primeira instância (especialista nos crimes de colarinho branco e estudioso/admirador da Operação Mãos Limpas) extremamente sagaz, corajoso e competente, que se defronta com a ponta de um iceberg que, por força do volume de infrações penais, rapidamente se revela uma montanha inimaginável e sem fim de crimes superpostos e todos apontando para uma só direção: os governos petistas (dá para notar que é uma corrupção diferenciada).
A força do Moro está na fraqueza do PT, por conta dos inúmeros crimes que foram cometidos; quanto mais crimes aparecem, mais fortalecido fica o juiz. Observe-se que o Moro não é o xerife anticorrupção e tem sua atuação circunscrita a determinados limites. Muita corrupção não está sob a jurisdição dele, o que seria encargo humanamente impossível. Acredito na honestidade da força-tarefa pelo fato de que a oposição não se assanhou nem fez alarde. FHC e outros, até bem pouco tempo, davam declarações sobre a honestidade pessoal de Lula e da Dilma. Só mais recentemente, quando constataram a força e as proporções inesperadas que a Lava Jato tomou (ainda tem muitos reticentes) e a adesão popular, é que embarcaram no movimento, calcularam oportunisticamente que dava pé.
O panorama imediato que se apresenta é o fim agônico e patético do governo Dilma, de um refluxo eleitoral do PT e da desmoralização (e cadeia) do Lula. Muito provavelmente o Temer assumirá até o fim do mandato (no caso da saída da Dilma, o TSE perde o ímpeto, “para evitar mais traumas” = mentira) e fará um governo austero, contido, evitando ao máximo os deslizes e sacolejos de uma sociedade arisca.
Não sei se o plano do PSDB/PMDB será exitoso, pois os políticos profissionais estão desmoralizados e nestas ocasiões o povo tende a optar por uma cara nova, um fenômeno, um messias. Existe ainda a possibilidade da Marina, em seu estilo dissimulado e errático...

De toda sorte, existe a possibilidade que foi descortinada por todos estes acontecimentos precipitados, qual seja, a perseverança do povo em protagonizar resistências aos abusos, à corrupção, à impunidade e aos privilégios. Além de um desejo compartilhado por milhões de pessoas, é uma oportunidade real. Veremos se a perversidade vai vencer, mais uma vez, as esperanças de um mundo mais decente.


quinta-feira, 24 de março de 2016

CAUSAS E EFEITOS DA CORRUPÇÃO

Normalmente, o cotidiano dos três poderes da República passa despercebido pela sociedade em geral, posto que costuma despertar interesse apenas em atores direta e indiretamente envolvidos. Promulgações de leis, assinaturas de decretos e decisões do STF, são assuntos deveras maçantes e, muitas das vezes, ininteligíveis para o povo em geral. Entretanto, são estas ações que passam a reger a sociedade como um todo, pois que regras imperativas com fenomenal poder de coerção. Mesmo decisões que interferem em grande contingente de pessoas, a desoneração de um segmento produtivo, por exemplo, não sofre o crivo da população, que não a entende e mesmo não lhe é explicada. Por conta deste desinteresse do grande público, é que em situações excepcionais, de crise, as pessoas se espantam e criticam determinados procedimentos (legais), que não obedecem a critérios racionais, são protecionistas ou que são propulsores e indutores de injustiças.
Conjunturas como as atuais, em que a sociedade se movimenta contra determinadas práticas dos governantes, representam momentos profundamente positivos, pois que servem para aproximar e mesmo contrapor a sociedade frente às instituições públicas que teoricamente a representam. Nestes momentos, mesmo que informalmente, a representatividade dos governantes (quase que absolutas) sofrem restrições e a opinião pública passa a ter alguma importância.
É nestes momentos de crise, conforme o desenrolar dos acontecimentos, que o cidadão descobre que muitos dispositivos institucionais, tornados legais, estão em desacordo com o sentimento da sociedade e alguns contrariam a lógica formal. Descobre, por exemplo, que existe foro privilegiado, que o processamento jurídico é lento e leniente; que os membros da Corte Suprema do país são escolhidos monocraticamente pela maior autoridade do país. Por conseguinte, constata que tal arranjo possibilita (até induz) a captura do STF pelo governo. O cidadão toma conhecimento da existência de uma infinidade de cargos comissionados que se configuram num verdadeiro labirinto a propiciar um fácil e sedutor aparelhamento do Estado. Descobre que as leis estão grávidas de privilégios sob o dístico fundamental de que todos são iguais perante a lei. O cidadão estonteado se revolta ao saber que, apesar das leis, os maiores salários públicos são engordados por “auxílios” e se elevam estratosfericamente. Nesta lógica perversa e cínica o trabalhador com salário insuficiente para prover a sua sobrevivência e da família, que sacoleja em transportes morosos, caros e sucateados, é afrontado em saber que os donos de cargos poderosos (não necessariamente úteis) fazem jus (legalmente) a auxílio transporte, em carros novos e com motorista à disposição. O aposentado se vê agredido em sua autoestima ao constatar que, contrário senso, o aumento concedido ao bolsa-família é bem superior ao valor de sua aposentadoria que anualmente míngua.
É como uma fratura exposta, milhões de cidadãos espalhados pelo país se convencerem de que os poderes e as leis do país compõem um golpe contra a cidadania. Estarrece constatar a quantidade absurda de leis e políticas implantadas que são consideradas inconstitucionais. Humilha ver o STF se debruçar semanalmente para dirimir questões pessoais de um cidadão investigado por crimes variados e demorar mais de dez anos para decidir a inconstitucionalidade da PEC do Calote (precatórios), uma questão que envolve o direito de milhões de cidadãos.
Evidentemente que a cidadania desvela como escárnio à Justiça, o próprio STF não cumprir uma Norma, votada por seus membros, e sancionada (pedido de vistas). Nesta especialidade, constatar que os poderosos naturalizaram impunemente a transformação de atos vinculados em discricionários o que transforma a atuação da máquina pública num autoritário reduto de injustiças e seletividades pessoais. Enoja a constatação da existência de um Estado extremamente ciente e exigente no cumprimento das leis ao passo que ele não as cumpre. Exaspera observar que o jeitinho prepondera sobre a lei ou convivência civilizada e que a molecagem esperta se faz regra pétrea.
Talvez, com a crise, seja dada a hora de repensar as práticas públicas e reformar as leis sob pena de continuarmos neste pântano de iniquidades. Apesar de necessário e urgente, não é suficiente o afastamento de um governo corrupto, se não extinguirmos as causas que propiciaram a existência de tantos descalabros. A atuação deletéria dos governos petistas (em comparsaria com a base aliada) são apenas os sintomas. As causas residem numa estrutura viciada que possibilita toda sorte de desmandos e malfeitos resguardados por uma impunidade que retroalimenta o cinismo e a perversão.
Numa rotineira e “tenebrosa transação” os políticos tradicionais, os mantenedores do patrimonialismo, ombreados momentaneamente (e na undécima hora) com o povo, aguardam a derrocada do projeto petista, para então, estabelecer uma negociação pelo alto, afastando a participação popular e retomar o caminho da perpetuação da dominação elitista, corrupta e impune.
Não desmantelar a estrutura vigente é preservar o ovo da serpente em sua inteireza e poder de contaminar os futuros mandatários, pois que humanos e não imunes às tentações de mando e riqueza. Mesmo porque, embora demonizados e empedernidos arrivistas do caos, os dirigentes petistas não detêm o monopólio da corrupção, da perversidade e da arrogância, pois que predicados dos seres ditos racionais: o homo (e mulher) sapiens.

domingo, 20 de março de 2016

A lularização da política

Acho que no meu DNA veio apragatada uma deformação que até hoje carrego como fardo e indisfarçável orgulho, qual seja, um profundo sentimento de solidariedade com o povo simples do meu país. Na outra ponta, cultivei um robusto nojo pelas elites insensíveis, às quais o povo ingenuamente entrega os seus destinos indefesos, grávidos de fragilidades. Com estas duas certezas e nada a temer, foi que forjei algumas convicções inabaláveis que têm norteado os meus pensamentos e as minhas revoltas. Uma delas, que guardo desde menino, é o sentimento de que presidir dignamente o Brasil, implica, para este presidente, se conscientizar que a sua própria existência não mais lhe pertence de todo. Mesmo porque, depois de tamanha honra, pode morrer apaziguado com os seus demônios, as suas incertezas e os seus prováveis erros. Não vejo a necessidade de se conceder (menos ainda em lei) nenhuma vantagem pecuniária a um ex-presidente, uma vez que este é que deveria se sentir extremamente grato ao povo por ter lhe confiado tamanha honra e mesmo o incalculável prazer de realizar tal missão. Não vejo porque um presidente aposentado deve necessariamente ter uma vida de facilidades que a maioria dos trabalhadores do país sequer ousam sonhar. Acredito que o respeito e o reconhecimento do povo seria o maior estipêndio e que suficientes seriam para levar o restante da vida. Creio que falo mais em felicidade do que em poder, porque acredito que todos nascem com a missão de buscar a felicidade, mas o endereço da mesma se mostra variável, fugidio e enganador.
Apesar de nunca ter interesse por política partidária e muito menos militância em partidos políticos, nos seus primórdios (até a eleição do Lula à presidência), o Partido dos Trabalhadores me pareceu uma possibilidade de fazer política com ética e quebrar o fazer rasteiro e maquinal dos políticos tradicionais, que aprofundavam a demagogia, o clientelismo e a corrupção. Tal quadro de degradação não torna o país apenas mais pobre, apequena os seus costumes, os seus valores e a sua cultura. Infinitamente pior do que o roubo da coisa pública é o roubo do orgulho, a frustração coletiva de não ser respeitado exceto pela galhofa do futebol e do carnaval.
Lembro que o PT, para manter uma postura ideológica irredutível, assumiu posturas na contramão do ganho político que se traduzia apenas em voto quantitativo, vazio. Perseverou com atitudes corajosas, como expulsar dos seus quadros políticos eleitos, decisão jamais assumida por partido algum, pois, para a politicalha, ao contrário, todos os votos são bem-vindos. Com esta estrutura consolidada e por consequência, o PT passou a ter uma militância diferenciada, pessoas abnegadas que se predispunham a trabalhar gratuita e alegremente para a consecução de um país melhor, menos viciado, mais igualitário.
A frustração de tantos sonhos – o derruir de tantas esperanças – veio em galope avassalador, logo após a eleição de Lula à presidência do país. Os primeiros passos do governo petista representaram claramente a negação de toda a sua trajetória até então percorrida e os mais radicais assim o entenderam, abrindo um fosso e provocando feridas que nunca vão cicatrizar. Outros, mesmo em desacordo com as políticas desenvolvidas, se agarraram a sonhos de mudanças que jamais se concretizariam, pois que abandonadas pelos aiatolás. Uma vez no poder e controlado por poucos, o PT sofreu mudanças que o desfiguraram até como um partido tradicional. Numa reviravolta assombrosa – da água para o óleo – a sua nova identidade se forjou como uma agremiação de cunho empresarial, imperial e sem laços afetivos com a militância que passou a ser profissionalizada através do poder do Estado, direta e indiretamente às custas do povo. Essa nova relação transformou o PT num partido inorgânico, extremamente cioso da sua estrutura organizacional a imprimir relações de mando e obediência. O antigo militante petista, orgânico, obedecia ao seu credo ideológico e o novo passou a prestar obediência ao patrão que lhe paga o salário com o dinheiro do povo. Um partido que interdita a democracia interna, não respeitará a democracia nos embates com os adversários. Nesse mesmo movimento, substituiu a sinceridade dos projetos por máscaras de marketing.
As políticas populares incrementadas pelo PT, não se originaram na preocupação com as necessidades básicas do povo, mas numa relação de custo-benefício. O Fome Zero não foi instituído em função do povo, mas dos votos. O Bolsa-Família, idem. Este tipo de arapuca é muito antigo, remonta a Idade Média e foi aperfeiçoada pela Igreja Católica, sob a justificativa de exercitar a caridade. Pede aos ricos para dar para os pobres, mas escamoteia a existência do intermediário que fica com a parte do leão. Claro que para ter continuidade na recepção de valores, se vê na contingência de apresentar alguns préstimos (asilos, leprosários, alimentação, etc.), substancialmente menores do que foi arrecadado. Claro está que a montagem de tal estratagema não obedecia aos ditames da caridade, mas tão somente ao enriquecimento. É muito triste, mesmo patético, constatar que o povo simples do país acredita numa generosa preocupação com os mais desvalidos. Guardo esta empulhação como mais perversa do que a roubalheira desenfreada, levada a cabo pelo PT, que cerceou a educação, que matou doentes, que desrespeitou a sociedade (principalmente velhos e crianças desprotegidos), e que, enfim, nos apequenou enquanto nação.
Creio que os ainda hoje petistas, apesar dos profusos e degradantes descalabros, não conseguem entender a extensão e a profundidade dos danos causados ao país. Estes sinceros retardatários enxergam mais os seus desejos do que a realidade em exposição – fratura exposta. Acegados de entendimento continuam cultuando o PT como um partido de esquerda, e não uma instituição regida sob uma estrutura sindical deturpada. Se autoafirmar como sendo de esquerda, qualquer partido pode fazê-lo, mas se não preencher a palavra com a concretude dos atos e dos exemplos, nada mais será do que o eco da palavra a embalar enganos e desfigurações de horror e náusea.
Capitaneando um simulacro de partido político, a nomenklatura petista, sob o comando e jugo de Lula, se lançou com iracunda, soberba e inaudita audácia num plano de açambarcar o país através do total aparelhamento do Estado que, após a sua consecução, lhe dariam as condições de manipular o setor privado. Tal arquitetura, arrogante e perniciosa conseguiu o feito inesperado de escandalizar as elites empedernidas, useiras e vezeiras em negociar o futuro da nação na bacia das almas.
Ironicamente, a patranha quadrilheira, que desfilava em céu de brigadeiro, cometeu talvez o único erro imperdoável, roubou de rico! Tradicionalmente, no Brasil, sempre foi permitido (em formato patrimonialista) o roubo da coisa pública, sob a rubrica de dinheiro de ninguém, pois que de difusa titularidade. Desta forma, roubar a Previdência, a Saúde, a Educação, os Correios, o BNDES, a merenda escolar, etc., se tornou uma rotina devidamente banalizada, quase que consagrada como uma legalidade. Eis que os quadrilheiros do PT (e agregados) esqueceram o beabá da informal criminologia e assaltaram a Petrobras que, pela sua importância no imaginário popular, nos faz esquecer que é uma empresa de economia mista e, para pior dos males, com capital aberto. A atuação no mercado de capitais implica a submissão a regras rígidas, mais inescusáveis do que a Constituição do país, pois que estão atreladas às regras gerais do capital internacional. A atuação rapineira na Petrobras resultou num furto direto a investidores ricos e poderosos, dentre eles grandes empresas e fundos de diversos países. Claro e evidente que não se rouba neste patamar impunemente. Este acidente de percurso deslanchou o encadeado de incidentes criminais que transbordaram na mídia e, pelo fenomenal volume, assolou o PT com a potência de um tsunami equatorial (seja lá o que signifique).
Diante de tal descalabro, é perfeitamente compreensível a atuação da força-tarefa da Lava Jato (cuja força é fornecida pela fragilidade da situação criminosa), em que um juiz de primeira instância, com perícia e competência exemplares, está conseguindo o que nunca dantes na história deste país o Judiciário foi capaz de produzir: colocar personagens ricas e poderosas atrás das grades, em quantidade espantosa e inusitada.
No capítulo do cerco da justiça ao Lula, vamos encontrar o país convulsionado por legítima indignação a enfrentar um governo agonizante, porém renitente em reconhecer seus erros e crimes. Agarrada aos fiapos de poder e legitimidade que lhe restam, a Dilma Roussef vem protagonizando cenas constrangedoras (para o decoro do cargo) e patéticas no atacado e no varejo, no público e no privado. Coerente com este pensamente degradado, a presidente Dilma se submeteu a várias ignomínias públicas, pois que o seu ideário político está contaminado pelo pensamento do seu mentor e mestre. Arrastou perante toda a sociedade uma farsa mambembe, de onde escorriam as mentiras que proferia em cadeia torrencial, uma tentando consertar a anterior desmascarada.
Desta forma, diante deste cenário dantesco de terra arrasada e de consciências estupradas, retomo nostálgico ao tempo em que, menino, acreditava que a maior e mais valiosa oportunidade que poderia ser oferecida a uma pessoa seria assumir o mando do país e ser digno de tão especial e honroso encargo.

quinta-feira, 3 de março de 2016

Uma convicção cidadã sobre Lula e as elites

Assim como existe o dispositivo da livre convicção do juiz (figura teoricamente democrática exercida de forma ditatorial), os cidadãos em geral gozam do direito de formarem suas convicções sobre tudo que é do seu conhecimento e que demonstram interesse. Da mesma forma como pode acontecer com o juiz, a convicção sobre determinado acontecimento pode ser falha, motivada por falta de informações ou mesmo por conclusões equivocadas. Há sempre uma margem de equívoco para toda e qualquer convicção, por mais bem assentada nos indícios, fatos, provas e conjunção lógica. Ocorre que, sem este dispositivo, estaríamos condenados à inércia, nada faríamos e o mundo estacionaria na mesmice.
É baseado nestas premissas acima que me estribo para tecer minhas considerações sobre a minha convicção sobre o ex-presidente, Luiz Inácio, o Lula e sobre as ocorrências em seu entorno. A formação de tal “certeza”, que é pessoal e intransferível, procede da vasta gama de informações veiculada pela mídia diuturnamente e das minhas conclusões, sobre as quais meus neurônios (tico e teco) se debruçaram.
Sempre existiram inúmeras suspeitas sobre procedimentos aéticos e mesmo criminosos do Lula, muitos cochichados e tidos como boatos, desde os tempos em que era uma liderança sindical. Suspeitas que era colaborador do DOPS, boatos que a CIA o cooptara, assim como ao Lech Walesa. Boatos mais restritos davam conta de assassinatos por questões de disputas de poder nos sindicatos. Este viés nebuloso que sempre o acompanhou, sempre foi descartado por conta de uma equação (ideológica) de custo-benefício, que aparentemente se justificava na medida em que ajudava no combate ao inimigo maior, a ditadura militar. Tal entendimento gerava o ovo da serpente que, ao eclodir deu vida a uma fera que, embora familiar, tornou-se irreconhecível e endêmica.
Ocorre que essas suspeitas iniciais que recaíram sobre o líder metalúrgico foram abafadas por um sentimento de antropofagia às avessas que campeou pelo país nos anos da ditadura militar: a construção de mitos talhados arbitrariamente, com o sonho de apressar a instituição de uma democracia muito próxima do decálogo da existência no paraíso. Este processo se estrutura na ideia de que o combate a um mal específico e identificado, iguala os seus adversários em honradez, honestidade de propósitos e mesmo generosidade. Qualquer um (com projeção na mídia) que manifestasse desagrado para com os militares era ungido a herói e necessariamente de esquerda. A nossa lucidez dizia que Caetano Veloso era apenas um menino talentoso que almejava uma projeção profissional para poder fruir as facilidades burguesas, gozar os prazeres mundanos que o dinheiro propicia. O nosso desejo, por outro lado e preponderantemente, queria que ele fosse um combatente de esquerda, um artista imbuído da radicalização só encontrada em poucos, como o Che Guevara. Embalados nestas quimeras de desejos foi que criamos um panteão de “heróis” hiperdimensionados que, já naqueles tempos, Belchior vaticinava como sujeitos que se recolheriam em casas confortáveis, guardados “por Deus, contando vil metal”. Neste raciocínio de estreita e maniqueísta concepção, passamos o rodo nas nossas avaliações críticas e procriamos, como coelhos em permanente cio, uma casta de heróis digna de um fabulário concebido por ingênuos querubins. Heróis insinceros e oportunistas (em sua maioria), alguns descerebrados, outros alienados e uns poucos honestos que quedariam impotentes dentro do novo quadro que foi configurado.
O segundo grande engano da razão cometido pela geração dos anos de chumbo, foi acreditar no improváel, posto que era um crer urgente e inadiável. A nossa racionalidade expunha um quadro no qual as elites combatiam a ditadura, mas não com o objetivo de implantar uma democracia de verdade, mas simplesmente reconfigurar o antigo modelo patrimonialismo, desta vez sendo reforçado através do Judiciário.

Na guerra pela fala, a versão que se busca consagrar a atuação criminosa levada a cabo pelo Partido dos Trabalhadores, é a de que o Mensalão e a Lava Jato vilipendiaram os valores republicanos. Não é verdade! O crime petista foi o de aprofundar o saque generalizado do erário público, criando um método, organizando e institucionalizando a roubalheira. Acredito que os antecedentes (morais e legais) nos autorizam a acreditar que este era um desfecho previsível, pois as condições objetivas estavam disponíveis para a consecução de um aparelhamento criminoso do Estado. O cenário (de franca expansão e naturalização da impunidade e privilégios) contemplava incontáveis facilidades para o assalto ao Estado. Agasalhava os ingredientes necessários e aguardava apenas os sujeitos com ousadia e perversidade suficientes. Por consequência, a elite e Lula são face de uma mesma moeda e não são excludentes, não combatem em campos opostos, pois que o butim é o mesmo, o aprofundamento da institucionalização e naturalização do patrimonialismo.

Há uma grande confusão (proposital) entre esquerda e comunismo. Lula e Dilma nunca foram comunistas e os poucos que se filiaram ao PT de lá saíram decepcionados ou expulsos.
Há uma confusão, também proposital, entre o comunismo enquanto teoria marxista e as revoluções que foram intentadas em seu nome e que deram com os burros n´água. Sempre estive convicto de que poucos homens no país estavam prontos e coerentes com uma possível revolução comunista, pois a maioria dos nossos revolucionários cultivavam (ainda cultivam) hábitos e consumos extremamente burgueses. Uma revolução do tipo prescrita por Marx implica numa radicalidade que só sujeitos absolutamente desapegados de bens materiais, os espartanos radicais, podem levar a termo, sem desvios ou tergiversações. Não acredito que a nossa esquerdinha de Ipanema, topasse tal azeda empreitada. Após uma revolução vitoriosa, impossível imaginar Sirkis ou Gabeira ministrando aulas no interior da Amazônia, impossível encontrar casualmente Celso Furtado ou FHC almoçando com estivadores ou peões de uma obra. Tem uma frase do Celso Furtado, que foi publicada num jornal e tida com naturalidade. Ele afirmou que morar em Brasília era horrível. Tal frase proferida por um tido esquerdista é digna de Clodovil Hernandez, de Chiquinho Scarpa ou hedonistas outros. Furtado, nesta época, era ministro da Cultura do Sarney e, portanto, gozava de mordomias de primeira. Um verdadeiro combatente das causas populares afirmaria que morar em Brasília, na periferia, desempregado e faminto é um horror. Mas os nossos desejos comandam a entronização dos nossos ídolos, assim como a Cláudia Leitte hoje em dia é a rainha das massas rebolativas e de canções sofríveis.
Naquela época de chumbo, nas artes, por exemplo, o melhor atestado de qualidade artística residia na resistência à ditadura do que propriamente em requisitos de talento. Um destalentado que desafiava os censores era incensado e escrever pormas sobre sabiás (mesmo que de forma genial) era alienação imperdoável. Nesta bitola estreita fomos consolidando nossos ídolos e a militância de esquerda se transformou em base curricular, propriedade privado, no sentido capitalista.
Com a restauração da democracia, em que, para tanto, o povo foi manipulado a uma participação decorativa enquanto se negociava uma transição pelo alto, a esquerda e seus próceres encontraram terreno fértil para toda sorte de proselitismo, em verdade, conta-se nos dedos aqueles que retornaram aos seus empregos. A maioria usou o prestígio de ser antimilitarista para adubar carreiras políticas que se mostraram absolutamente medíocres, quando não inidôneas. Absorvidos pela luta política burguesa abriram mão de suas convicções (?) para a construção de um prestígio político (votos) movido a oportunismos e conchavos, mesmo com a execrada esquerda.
Isto desaguou numa realidade em que, olhando-se o quadro político atual, não se nota muita diferença entre figuras como Ronaldo Caiado, Bolsonaro, Aécio, Renan, Sarney, Collor, Eduardo Paes, Cunha, Sérgio Cabral, Marina Silva, Tarso Genro ou sua filha. Há uma perene desconfiança, posto que a história confirma que eles, como as pedras do rio, um dia se encontram, se entendem e se mancomunam, dependendo dos interesses em jogo.
Os componentes da nossa esquerda, em sua maioria esmagadora, hoje ocupam alguma função política e enfiam os dentes nas verbas públicas, seja através de corrupção ou usando mascaradas “legalidades”, que redundam em privilégios, principalmente pecuniários. Patético ver um guerreiro do povo, um prócer da luta pelo proletariado embolsando sorrateiramente valores oriundos de “representação parlamentar” ou “auxílio-moradia”. Homens que se diziam dispostos a morrer pelo povo a se aposentarem com quatro anos de “trabalho”.
Um grande problema do pensamento da nossa esquerda é que a lógica do que expressam não tem necessariamente que ter embasamento na realidade, mas apenas estar estribada num voluntarismo inconsequente e de pernas curtas. Há uma eterna contradição entre o que dizem e o que falam.
Recentemente, a presidente Dilma – que não compareceu à festa de aniversário do PT – que busca se descolar do PT e que é combatida pelo PT, enviou uma carta na qual contradiz toda a realidade existente. Após firmar intenção de defender o seu guru Lula de ataques injustos, arremata afirmando que:

De norte a sul e de leste a oeste, seguiremos firmes e fortes, de braços dados com essa aguerrida militância do PT que, como eu, tem orgulho de empunhar a bandeira vermelha com a estrela branca na luta pela construção de um país mais justo e democrático.

Isto nos dá bem a extensão de como o cinismo e a hipocrisia ganharam naturalidade no fazer político e mesmo na sociedade. Não há nenhuma preocupação com a ética, mas sim com a consecução de um objetivo pessoal, de seguir uma estratégia traçada na busca de manutenção do poder. Evidentemente tudo é uma pantomima brega, pois a Dilma sabe que só é presidente por circunstâncias inesperadas. Sabe que, não fosse o mensalão, jamais seria o poste escolhido pelo Lula. Sabe que para o PT, nada mais representa que um acidente de percurso, muito distante de uma escolha por méritos. Talvez o maior mérito da Dilma seja ser membro da quadrilha. Não é razoável a ideia de que o chefe de um bando criminoso indicasse para o seu lugar, alguém honesto e discordante da ação quadrilheira em curso.

Lembro que a primeira eleição do Lula veio embutida de muitas esperanças e principalmente mudanças radicais na forma de fazer política. A eleição do homem simples lhe deu cacife para implantar as reformas que o povo necessitava e ansiava. Logo após a posse, uma descomunal decepção que provocou uma debandada da militância sincera e a consolidação de uma nomenklatura de ferro no centro de decisões do Partido dos Trabalhadores.
Uma vez no poder, os mandatários avaliaram friamente que poderia substituir uma militância ideológica (incômoda) pelos cargos que a República oferece em quantidades quase infinitas. Dessa forma, como num passe de mágica, o PT trocou o apoio ideológico pela submissão de cargos e salários, método que em si só já garante controle absoluto dos filiados.
Ainda na trilha do controle político através do poder econômico (ironia, não?) foi que os seus dirigentes (que já comandavam os fundos públicos através dos sindicatos) aceitaram/urdiram um plano extremamente ousado e de alto ingrediente de perversão e periculosidade e que desembocou no aparelhamento total do Estado, através de uma quadrilha atuando dentro do Palácio do Planalto. Acredito que o que os fez pensar em tal viabilidade tenha sido o exercício anterior em que, por anos a fio, usaram tal processo, com inaudita facilidade e impunidade, dentro da esfera sindical. Desta forma, apenas expandiram uma atuação, mas necessitaram fazer ajustes, pois que a escala de atuação era infinitamente maior. A operacionalização de tal estrutura aumentava os riscos, pois que acrescia exponencialmente os comparsas, inclusive de outros partidos políticos. Foi por este viés que, no escândalo do mensalão, surgiu a figura de Roberto Jefferson e, na atualidade, surgem as inúmeras delações premiadas que escancaram crimes do arco da velha.
Ocioso observar que ao se desprender da militância sincera, teve que lançar mão de marketeiros com competência para efetuarem a prestidigitação da manutenção de um discurso que não mais existia na realidade.
Existe uma clareza absoluta que as ações do Lula são sempre obscuras, mesmo em coisas de simplicidade franciscana. Levando em conta os depoimentos sobre o empréstimo bancário do Bumlai, o assassinato de Celso Daniel é mais que penumbroso. O sítio de Atibaia não é do Lula por um mês, mas se transforma num presente de amigos na mais recente versão. O triplex não é do Lula e a quota-parte pertence à Marisa...  Sempre, em suas pegadas nos deparamos com empreiteiras boazinhas, céleres em lhe prestar favores caros e desinteressados. Mesmo uma reles antena de celulares postada na proximidade do seu sítio é irregular, na medida em que não tem a placa de identificação, como as demais espalhadas pelo país. Estranhamente, seus filhos, empresários vitoriosos, moram de favor em suntuosos apartamentos cedidos por amigos e seus escritórios idem.
Para evitar um simples depoimento, diante de um promotor estadual, são disparados dispositivos protelatórios que salvaguardem o Lula e mesmo o ministro da Justiça é substituído motivado por não controlar as investigações contra Lula e o PT. Como sempre, a chicana foi impetrada por um preposto não oficial, o deputado Paulo Teixeira, como se Lula não tivesse nada com o peixe (ensaboado).
No episódio do mensalão, com relação a José Dirceu principalmente, foi surpreendente a facilidade com que o Lula se desvencilhou da companheirada envolvida e condenada. Apesar dos conchavos e chicanas promovidas pelo STF, a cadeia foi um incidente não aventado nas possibilidades da empreita. Evidentemente que o José Dirceu guarda mágoas do antigo companheiro de fé, camarada e que deve ter tido seus pruridos de efetuar uma delação premiada, dando-lhe um abraço de afogado. Ocorre que a delação envolve auto culpa e que, nesta seara, os crimes são tantos e tão hediondos que não poderia arcar com tanto peso, sendo eles de conhecimento público. Lula avalia que Dirceu não falará, pois se aniquilaria junto com ele.

Lula não é bobo, sabe das tretas. Sabe perfeitamente que a sua resistência em prestar um simples depoimento é extremamente desgastante para a sua já debilitada credibilidade, mas sabe que este desgaste é muito menos deletério do que depor e ficar amarrado nas próprias palavras. Deve avaliar que o exército de esqueletos do seu almoxarifado está por um fio e que, a qualquer momento, as mais diversificadas abusões podem assombrar o país, não pelo que a sociedade já intui, mas por ser bem mais extensa e perversa, a lista de crimes que foram cometidos em nome de um projeto banhado em megalomania e enxaguado em sociopatia.
Não existe blindagem infalível e sabemos que o pacto de silêncio sempre é quebrado e quando isso ocorre, as pontas expostas permitem um rastreamento dos acontecimentos. Todo ladrão sabe que a confiança depositada nos comparsas tem limitações e que a principal delas é justamente o fruto e a divisão do butim.
Desta forma, apenas com as informações públicas, estou convicto da impossibilidade de o Lula (e Dilma) não ser condenado. Imagino que ele está mais convicto, pois sabe de todos os delitos que cometeu. Daí a minha convicção de que a única solução, com um fiapo de esperança à sobrevivência política, é apostar num confronto institucional. Estou convicto de que a estratégia do PT é apostar num impasse institucional com o objetivo de criar uma cortina de fumaça sobre os crimes cometidos. Devem raciocinar (já que tudo está perdido na justiça) que havendo uma ruptura institucional (provocada por eles) criam a chance (tênue) de retornarem como vítimas. Em seus delírios, avaliam que um novo marketeiro esperto produzirá a mágica necessária para, mais uma vez, o sapo se transformar em príncipe. Para tanto necessitarão de dinheiro, mas isto é o que não falta neste país de famintos e bestializados. Perverso.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Os fascistoides fundaram a Liga Anti-Fascista

Meu caro petista da Liga Anti-Fascista.
Não tenho por costume escrever respostas a cartas apócrifas, principalmente guardando fundadas desconfianças de que se trata de um texto encomendado e pago a peso de ouro e a venda da consciência. Acreditei, a princípio, que o título do texto (O ódio das trincheiras) deveria ser uma análise dos embates midiáticos suscitados pelas inacreditáveis mazelas perpetradas pelos integrantes mais brevetados do Partido dos Trabalhadores. Muitos destes crimes já foram apurados (alguns até julgados), mas os indícios (robustos) apontam para coisas do arco da velha, enredo nunca posto em prática no mundo civilizado (nem na barbárie). Argumentam os petistas que tudo isso nada mais é que uma conspiração das elites para apear a esquerda do poder. Por que as elites teriam tal interesse, se todas as suas vantagens e seus privilégios foram mantidos (e aprofundados) nestes anos sob o comando de Lula e Dilma? Quais condições práticas teria uma oposição para inventar crimes e forjar tamanho manancial de provas, numa conjuntura em que o governo tem condições privilegiadas de defesa e mesmo controle sobre as investigações?
Acredito que quem despertou o ódio irracional foram os petistas, ao tentarem, a todo custo, defender o indefensável. Ao tentarem politizar questões de polícia e do judiciário, numa insensata negação dos fatos, os petistas se colocaram numa postura de seguidores religiosos fundamentalistas (outros por questões econômicas, a célebre boquinha que sempre é oriunda do dinheiro público) e isto açulou os aloprados fundamentalistas anti-PT, a direita raivosa e truculenta. Concordo que aloprados temos de todos os matizes, mas os com maior poder de malfeitar, são os que estão no poder. O supra-sumo da intolerância antidemocrática dos petistas fica patente na medida em que tentam impor os dirigentes petistas (simples mortais) como portadores de valores universais. Acusar Lula é atacar a democracia, pedir o afastamento de Dilma é ser antidemocrático, investigar indícios de crimes se transforma em conspiração de direita.
Concordo com você que é estupidez afirmar que o PT é comunista, seus quadros não têm envergadura para tanto, pois deve ter meia dúzia de comunistas em suas fileiras (os verdadeiros caíram fora na primeira leva, nas primeiras esparrelas do Lula na presidência). Lembro que nas discussões de apoio ao Lula no segundo turno, contra o Collor, lá em Cajamar (isto está publicado em livro), o velho Prestes afirmou que Lula não era nem nunca seria comunista, e apontou a principal razão, era preguiçoso e não queria estudar para entender o mundo.
Creio que você mesmo concorda com isso, pois reconhece que vivemos 13 anos de governos petistas “onde os banqueiros obtém recordes em seus lucros” (palavras suas). Então, não sendo comunista nem querendo assumir posturas de direita (apesar de manter e aprofundar a política neoliberal de FHC) o que restou ao PT em sua sanha de manter o poder? Eu, particularmente, acredito que a aposta política petista foi jogar todas as suas fichas num governo midiático e tal opção afastou seus dirigentes da realidade do povo deste país e mesmo da realidade cotidiana. Perambulam feito Alices, pois que o fã-clube perdeu os atrativos e os seguidores e simpatizantes já não salivam automaticamente. Isso acontece com muito artista famoso, porém sem conteúdo. A irresponsabilidade é patente, pois o mundo glamuroso dos olimpianos não se confronta com a miséria e o sofrimento dos esfomeados, mas os governos não são eleitos para escrever roteiros de fantasias. Acredito que estes governos petistas gastaram mais com propaganda do que com o bolsa-família, pois para eles era mais importante propagandear o feito (votos) do que a própria realização: amenizar a miséria dos mais necessitados. Acredito que deu mais dinheiro para os ricos do que para o bolsa-família e acredito que o montante de valores escoados pelos esgotos da corrupção foi maior que o empenhado no bolsa-família. Este seu próprio (?) texto desmascara a forma enrustida (uma espécie de venda casada) onde combate a extrema direita e as cassandras dos quartéis num contexto de defesa de Lula, Dilma, et caterva.
Perseverar espancando os fatos, reafirmando que Delúbios, Dirceus, Genuinos e Vaccaris, condenados e presos democraticamente, são heróis do povo, é mais fundamentalista e antidemocrático do que a atitude da direita aloprada que clama pelos militares. Absolver réus condenados na marra não está na nossa Constituição, porém a intervenção militar está.
Aos dezoito anos eu estava preso nos porões do DOPS, em Belo Horizonte, e por lá fiquei oito meses. Nunca tirei proveito disso. Não acredito numa solução militar e eles não têm um projeto para o país. O projeto de país elaborado nas casernas foi posto em prática, se esgotou e caiu de podre. Ninguém derrubou a ditadura, pois ela caiu de podre, mas antes negociou (como sempre) um acordo pelo alto, longe do povo (solução confiável de Tancredo Neves). Em treze anos no poder o PT teve oportunidades e condições objetivas de mudar uma estrutura perversa que tem como corolário o privilégio e a impunidade e não o fez, ao contrário, assumiu tal estrutura, aprofundando-a nos descaminhos da imoralidade hipócrita, desde que causa eficiente para os seus interesses. Nunca, em toda a história da República, um governo deixou tão patente que administra os seus interesses em detrimento dos interesses da sociedade. O que a Dilma tem feito, de forma escancarada, para se manter no poder, nem o Collor ousou em seus momentos mais extremos de delírio e arrogância.
Existem várias maneiras de combater a intolerância, a opressão e a estupidez. Mas não acredito numa que fala em defesa da democracia imbricada na defesa de cidadãos que estão sendo investigados, julgados e mesmo condenados pela justiça. Este seu texto não é uma defesa da democracia e nem mesmo do PT, mas antes a defesa dos principais mandatários de um partido, cuja maioria (os não detentores de foros privilegiados) foi condenada (democraticamente) e muitos estão atrás das grades.
Enfim, tenha absoluta certeza de que se o Lula for parar na cadeia, não terá sido pelo bom ou mau governo, por ter sido bonzinho ou mauzinho para com os pobres ou ricos, mas simplesmente porque usou os seus poderes (que são do povo) para tirar vantagens pessoais, cometeu ilícitos penais, delinquiu.
Neste particular, contrariamente ao que pensam os especialistas, a minha convicção, diante dos fatos, é que o Lula será condenado não só por provas contundentes, mas, e principalmente, pela ousadia de roubar de ricos. Ultrapassou os limites sagrados das regras capitalistas. Ao enfiar os dentes agudos da corrupção na Petrobras, os quadrilheiros do estado esqueceram de avaliar a reação dos particulares lesados. No Brasil, roubar verbas da educação, da saúde e dos aposentados é tarefa de facílimo cometimento, pois que dinheiro público, portanto, sem dono, terreno baldio de fácil acesso, livre manipulação e garantida de impunidade. Muito diferente é ter a ousadia de roubar fundos dos EUA, da Noruega e da Inglaterra. Desviar recursos do INSS pode, roubar do Bradesco e do Itau é aventura fadada a dar com os burros n´água.
Não se engane, persevere lutando pela liberdade e pelas causas que são justas, mas deixe as defesas judiciárias aos competentes e caros advogados, como prescreve as regras da democracia.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

O capitalismo, a corrupção e o aparelhamento do estado

Posto que, na modernidade, a hipocrisia se estabelece enquanto estruturada, como elemento estratégico que torna possível a continuidade de relações assimétricas entre países e mesmo nas questões da cidadania. O epicentro de tal arranjo, o seu estabelecimento de forma clara, se dá com o final da segunda guerra com a imposição de uma versão logicamente insustentável, na qual os perdedores foram demonizados e os vencedores endeusados e entronizados em santuário inconsútil. Uma história recontada de forma eivada de abusos, na qual se incutiu na memória social do mundo um Hitler mefistofélico em todos os sentidos e, ao mesmo tempo, se fez esquecer quem autorizou o lançamento de duas bombas atômicas sobre as cidades nipônicas. Óbvio que a justificativa de encurtar o sofrimento da guerra é conversa para alices mais desavisadas que a original. Creio que este é o marco fundador que estabelece e entroniza a hipocrisia enquanto categoria de sobrevivência (diplomacia possível), uma válvula de escape a impasses incontornáveis, diante forças extremamente díspares. Destarte, seguimos, até uma ruptura, uma existência sob o signo e o jugo do nojo.
O sistema capitalista tem regras que, apesar de modificadas pari passu ao avanço das forças sociais, mantem como eixo basilar o crescimento da produção e dos mercados, ou seja, a expansão capitalista. Tal desiderato (ou condenação) é inerente ao próprio sistema e independe de comandos determinados.
A abolição (embora tardia) da escravidão no Brasil ocorreu muito mais em função de pressões do capitalismo internacional nascente (capitaneado pelos ingleses) do que por força dos sentimentos humanitários da princesa Isabel, a redentora. A escravidão se tornou inviável, não em função de derramados discursos de cunho sentimentaloide, mas sim pelo fato de que era um entrave à expansão do capitalismo, posto que contrariava a sua lógica de previsão e controle do processo produtivo.
O processo de descolonização no continente africano não resultou da tomada de consciência humanitária do reconhecimento de direito e merecimento de respeito à autodeterminação dos povos, mas sim com a implementação de novas formas, mais eficazes, de exploração de riquezas pelo mundo afora, sem a necessária ocupação territorial que onerava o capital desnecessariamente. Assim como não há almoço grátis, não há um pingo de sentimento nesta carruagem povoada de lógica irreformável, máquina desgovernada, com o feio nos dentes, que constrange a ricos e pobres aos seus ditames de lucro. Mesmo Bill Gates e outros com fortunas maiores não contrariam as suas regras gerais sob pena de sofrer a decadência econômica.
Nesta sua nova fase, mais uma vez por rotas transversas, o sistema hegemônico passa a promover um combate à corrupção, post que este, alastrado pela periferia do sistema produz entraves para a livre expansão ao seu livre curso. A lógica do capital, apesar de objetivar o lucro não comporta o roubo puro e simples como uma de suas prerrogativas. O suborno de empresas e governos, no âmbito de concorrências transnacionais, está na contramão da lógica dos negócios, posto que o sistema não se reproduz através de crimes, pelo menos não dos crimes capitulados nos códigos criminais da quase totalidade do concerto das nações.
Hoje, no Brasil, nos rastros retumbantes de escândalos nunca vistos, através de crimes nunca ousados, nos deparamos com a sociedade brasileira extravasando uma indignação nunca antes registrada. O debate renhido e ainda incruento se dá em torno de uma operação denominada Lava-Jato, que teve como ponto de partida atos de corrupção na Petrobras e que se espalhou pela máquina administrativa estatal e que agora coloca no epicentro o ex-presidente Lula, como principal suspeito de ser o chefe de uma quadrilha com atuação sem precedentes na história do mundo dito civilizado. Por ter como alvo a elite no poder (empresários e políticos), as investigações e os julgamentos sofrem uma extrema e indevida politização de lado a lado que atiçam paixões desenfreadas e argumentações alucinadas. Neste momento, o debate está centralizado em torno do poder, no afastamento da presidente Dilma e convocação de novas eleições. Tal debate tem criado o mito de que a eleição de um novo presidente da república purgará a sociedade de seus principais males. Vã demagogia! Ingênua quimera!
Os problemas do país são mais sérios e mais profundos do que promover eleições e empossar eleitos, pois reside no que, como e para quem irão governar. Faz muito tempo que a máscara caiu e que o poder é adquirido e sustentado tão somente através de fisiologismos escancarados. Faz muito tempo que a escolha de um ministro não recai sobre um cidadão preparado para desempenhar as funções da sua pasta, uma vez que um ministério representa a adesões e apoios ao que eles denominaram de base parlamentar. Esqueceram que o Ministério da Saúde existe com a finalidade precípua de organizar a prestação de serviços de saúde para a população e não para manter um presidente com maioria no Congresso. Dessa forma o Estado passa a atender as suas necessidades em detrimento da população em geral, ou seja, deixa de administrar a sociedade para se dedicar a cevar a elite ora no poder.
A primeira e mais aguda perda, é a autoridade moral. Sem parâmetros éticos as nossas elites não se apercebem que perderam há muito os referencias que norteiam uma sociedade minimamente estruturada em igualdade e justiça. A crise moral que recobre os poderes da República e as elites nacionais é muito mais danosa e intransponível do que a crise econômica de singular crueza.
Foram tantos os séculos e tão fartas as doses que as seringas da hipocrisia irrigaram as veias das nossas elites a um ponto de esbarrar numa overdose, ponto sem retorno no vício. O patrimonialismo, paulatinamente estruturado, atingiu um limite em que sufoca a sociedade com suas demandas por privilégios cada vez mais abusivos. Perdeu-se a noção da razoabilidade na medida em que tudo, qualquer monstruosidade pode ser justificada. Vivemos num país em que cartorialmente as justificativas não necessitam ser minimamente racionais ou razoáveis, pois se esgotam na própria justificativa. Neste sentido, por exemplo, um juiz concede um habeas corpus a um traficante sob a justificativa de que as celas da Polícia Federal não reúnem condições dignas de mantê-lo. Espantosamente a comprovação de que todas as demais celas do país são piores não levam os nossos juízes a mandarem soltar todos os presos do Brasil. Dessa forma, juiz pode justificar qualquer coisa, pois o que se requer é uma justificativa, não importando o seu conteúdo.
A assimetria está incorporada ao nosso cotidiano de forma tão empedernida que mesmo cidadãos bem intencionados não mais conseguem distinguir o justo do injusto, o legítimo do privilégio, o honesto do desonesto. Difícil, senão impossível, encontrar algum nicho de poder que não esteja eivado de privilégios. Tornou-se lugar comum, mesmo no STF, soluções e decisões lambuzadas de corporativismo.
Vivemos um simulacro de lados ideológicos, pois que quaisquer ideologias são tragadas inexoravelmente por uma realidade estruturada que as antecede e as conformam. Em verdade, exercer o poder no Brasil, independe de ser de esquerda ou de direita, pois a estrutura sobre a qual o poder é exercido tem forma própria onde prepondera um patrimonialismo que se aprimora a cada dia e que tem como corolário a garantia de impunidade para os seus reinóis ridículos. Tal situação pode ser comparada ao do usuário de cocaína que, uma vez viciado, necessita aumentar paulatinamente a dose, até a overdose fatal. Da mesma forma, as nossas elites viciadas no mando indiscriminado, necessitam expandir as suas carreirinhas de privilégios mesmo que sabendo que a dose fatal está se aproximando inexoravelmente, uma vez que faz tempo o limite do tolerável foi ultrapassado.
Dessa forma, por mais que as paixões incendeiam os debates na atual conjuntura, por mais que o Partido dos Trabalhadores tenha institucionalizado uma política quadrilheira no interior do Estado, circunscrever a crise a tais sucessos é transformar sintoma em causa, uma vez que a matriz que propiciou tantos despautérios persiste incólume na estrutura que aí está, pronta para ter continuidade a uma simples substituição presidencial.